Violência Psicológica

A violência psicológica tem sido muito debatida, relativamente ao contexto marital, mas se há lugar em que ela existe é na escola.

Na verdade, o tema é abrangente e pode ser contextualizado em situações diversas, no entanto, há uma que não sendo tabu é muito pouco falada e a minha leitura é que isso acontece, justamente por ser quase sempre involuntária. Refiro-me à violência psicológica exercida pelo professor sobre os seus alunos.

Houve tempos em que era permitido ao professor agredir fisicamente os seus alunos. Quem nunca ouviu os seus pais e avós contarem os “clássicos episódios” das reguadas? Felizmente, a nossa sociedade tem chegado à conclusão que educar uma criança não passa por encará-la como um adulto em miniatura e exigir-lhe a mesma postura social que se espera de uma pessoa crescida, porque nem poderia ser de outra maneira. A criança passa etapas de desenvolvimento cognitivo que precisam de ser entendidas e acompanhadas com sabedoria e compreensão.

Ora, é aqui que reside o problema. Nem todas as pessoas estão esclarecidas sobre esta realidade e frustram-se perante a ausência de resposta por parte do outro. Tanto encarregados de educação, como docentes. Perante a impossibilidade de recorrer à velhinha reguada e face ao desconhecimento de estratégias eficazes para chegar à criança, parte-se para a gritaria e em alguns casos para certas expressões repetitivas que roçam o insulto, mas que não são mais do que desabafos de frustração, tais como: “Contigo é sempre, sempre a mesma coisa!”; “Vindo de ti não me espanta!”; “Deixa-me adivinhar: Não fizeste o tpc!”, etc. E se isto marca a auto-estima de uma pessoa…

Os pais andam preocupados em manter, ou encontrar emprego. Talvez até se verifiquem problemas familiares como o divórcio, morte de um familiar, ou doença e, se por um lado estas questões distraem os pais dos seus filhos, por outro, eles vivem estes traumas com uma intensidade muito superior à que se imagina. As crianças registam tudo! Os bons e os maus momentos. Fica tudo gravado nas emoções dos meninos que depois chegam à escola e fazem de tudo para chamar a atenção, nem que seja pela negativa. Tudo o que querem é ser protagonistas por um momento, tal é a sede de afecto!

Não quer isto dizer que os pais sejam maus educadores, ou que não gostem dos seus filhos. É a vida que distrai as pessoas, sobretudo os problemas da vida e muitas vezes quando se pára um bocadinho para confraternizar em família, percebe-se que já é muito tarde e que aqueles pequeninos que pediam “colinho” já não querem os seus familiares, porque entretanto encontraram uma “nova família”, os seus amigos e é com eles que querem estar. O problema é que nestes casos raramente há meio termo, ou seja, não há percepção de espaço para a família e espaço para os amigos. Trata-se de uma situação em que os amigos substituem a família e isso nunca é salutar.

Os professores, tal como os encarregados de educação, também andam muito preocupados com as mesmas coisas e é fácil cair no erro de responder com frustração aos comportamentos desajustados dos alunos, que por sua vez também são uma expressão de infelicidade.

Este ciclo vai-se agravando e curiosamente, quando professores e encarregados de educação se reúnem para tomarem medidas, por norma, quem tem de ser castigado é o menino! Ele é que está mal! Ora bem, a criança até poderá ter mesmo de ser repreendida porque há limites que não podem ser ultrapassados, mas também seria muito bom que a comunidade escolar em geral reflectisse nas suas prioridades, porque os comportamentos desajustados não são o início de um processo, mas a expressão de algo mais profundo que já acontece na vida da pessoa.

Alguém que está satisfeito com a sua vida, não desata a chamar palavrões aos outros, nem ameaça bater nas pessoas! Só quem já está bastante irritado é que se presta a este tipo de comportamentos. Alguém que está feliz na sua escola e se sente motivado, não se esquece frequentemente de fazer os trabalhos de casa e esforça-se por ir percebendo as matérias…

Se ambicionamos um futuro mais risonho, convém começarmos a interiorizar desde já e com humildade, que as crianças não são o caixote do lixo da nossa frustração.

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